A nossa literatura
- Cybervooo

- 8 de dez. de 2023
- 2 min de leitura
De acordo com Katherine Hayles, a literatura digital é intrinsecamente ligada às tecnologias digitais, tornando-se impossível dissociá-las no que diz respeito à sua produção. Na atualidade, porém, considerando os processos de edição e produção de um romance impresso, não é possível identificar uma literatura que não tenha etapas de sua produção fortemente vinculadas às tecnologias digitais. Dessa forma, seria toda a literatura produzida atualmente uma forma de literatura digital?
Hayles não se limita a essa breve definição e, em "O futuro da literatura: O romance impresso e a marca do digital", elenca uma série de outras características da literatura digital, buscando compreender como as textualidades impressas e eletrônicas se interpenetram. Ela indica que a literatura eletrônica tem como características a realização de textos em camadas — devido à natureza do código-fonte — e um comportamento de armazenamento e desempenho diferente do que se apresenta na literatura impressa. Além disso, propõe que tais textos tendem a ser constituídos por mais de um tipo de mídia em associação. Hayles também propõe que essa textualidade produz uma temporalidade fragmentada, que acarreta em tempos diversos de fruição de um mesmo texto, causados pela interação do leitor com o material em questão e por questões técnicas que dizem respeito à própria natureza do ciberespaço.
Para compreender os efeitos das tecnologias e ambientes digitais sobre a literatura, Pierre Levy propõe em seu "Cibercultura" que algumas das características relevantes da cibercultura são a interatividade, a conectividade e a desterritorialização. Essas três características ressoam na experiência leitora, produzindo uma experiência não-linear e personalizada, que torna plurais os sentidos produzidos e que pode ser compartilhada por meio de uma integração abrangente, consequência da conectividade característica do ciberespaço. No mais, a virtualidade é intensificada e as possibilidades de significação se ampliam, de forma que os diversos textos que são produzidos em diferentes localidades perdem muitas vezes o vínculo com tais espaços, adquirindo sentidos compartilhados e não geograficamente localizados. Isso acarreta em uma possibilidade de experimentação rizomática dos textos, que não ficam restritos a uma única experiência - pelo contrário, tem essas leituras plurais potencializadas.
Com isso, é possibilitado um contato mais ativo com os textos, onde o leitor atua como protagonista e criador, uma vez que, para Lévy, nos espaços digitais o conhecimento se dá de forma dialógica e não-horizontal. Essa não-horizontalidade permite que os usuários-leitores atuem de formas diversas sobre os textos, ao passo que o dialogismo do ciberespaço permite que se consolidem formas novas de escrita, formas estas que são menos individualizadas. Com isso, os leitores atuam como produtores de significado, seja produzindo algo sobre tais textos, seja estando em contato com seus autores, seja atuando como coautores.
Num ambiente digital ideal, todos esses elementos atuariam produzindo efeitos sobre a literatura, uma vez que a cibercultura abarca não só o que acontece nos ambientes digitais, como também aqueles fenômenos que ocorrem fora de tais espaços, mas são impactados por eles.

Comentários